Aumento na quantidade de data centers no Brasil acende alerta para criação de ilhas de calor e salto no consumo de energia

O aumento de data centers no Brasil consolida o país como o principal polo de inteligência artificial da América Latina, concentrando 49% de todo o potencial de processamento do continente. A saturação da rede elétrica na Europa e nos Estados Unidos impulsiona a migração dessas infraestruturas para o território nacional em busca de energia renovável abundante. Contudo, a instalação acelerada desses complexos acende um alerta ambiental imediato: a operação ininterrupta dos servidores exige um consumo de eletricidade em escala industrial e emite calor extremo, ameaçando a criação de ilhas de calor nas cidades-sede e forçando o debate sobre novas regulamentações. 

O cérebro da Internet

Os datacenters atuam como o cérebro físico da internet, abrigando milhares de servidores e equipamentos de rede em galpões de alta segurança. Eles processam, distribuem e armazenam os dados que sustentam a economia digital moderna.

Na prática, ações cotidianas como transferências bancárias, consumo de streaming em 4K e processamento de inteligência artificial dependem diretamente da capacidade computacional dessas instalações para ocorrerem sem interrupções.

Manter essa operação 24 horas por dia exige um consumo de eletricidade em escala industrial. O cruzamento contínuo de dados faz com que os chips gerem muito calor térmico, obrigando as instalações a destinarem grande parte da sua energia para sistemas de ar-condicionado e dissipação térmica.

Esse ciclo ininterrupto de consumo elétrico e emissão de calor pressiona a infraestrutura das cidades. O resultado é um desafio logístico e ambiental imediato para as regiões que recebem esses complexos.

Imagem gerada por IA via NanoBanana Pro / Luís Eduardo

Segundo o Portal 360, atualmente, o território brasileiro detém 49% de todo o potencial operacional de processamento da América Latina, posicionando o país como o principal polo tecnológico do continente. De acordo com um levantamento da Moody’s Ratings, essa hegemonia é seguida pelo México, com 27% do mercado, e pelo Chile, com 9%.

Brasil na corrida

A área portuária do bairro do Barreiro, em Belém, prepara-se para receber o BEL1. O empreendimento é o primeiro data center focado em inteligência artificial da Amazônia, operado pela Elea Data Centers.

O projeto tornou-se alvo de um inquérito civil do Ministério Público do Pará (MPPA). O órgão alerta para o risco de formação de “ilhas de calor” em uma região que já registra altas temperaturas históricas.

A infraestrutura iniciará com uma capacidade de consumo de 7,5 megawatts (MW), com previsão de expansão para até 100 MW. Apenas na etapa inicial, a potência de 7,5 MW seria suficiente para abastecer entre 22,5 mil e 30 mil residências na região Norte. O cálculo baseia-se em dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que aponta um consumo médio residencial de 6 kWh por dia no país.

A instalação levanta o debate sobre a ausência de diretrizes ambientais para data centers no Brasil. Não existem leis criadas sob medida para avaliar o impacto térmico e energético dessa tecnologia em solo nacional.

O promotor Márcio Maués conduz a apuração sobre a legalidade da instalação e os riscos de dano climático. Segundo o Portal G1, a preocupação do MPPA baseia-se em um estudo da Universidade de Cambridge, indicando que data centers podem elevar a temperatura terrestre ao redor em uma média de 2°C, com picos extremos de até 9,1°C.

“O efeito depende da tecnologia utilizada, mas é algo que precisamos estar atentos. Não acho que seria o caso daqui de Belém aumentar 9°C, mas é preciso demonstrar se haverá efeito de aumento da temperatura ou não, e em qual proporção”, argumenta o promotor.

O que apontam os estudos ao redor do mundo

A pesquisa de Cambridge, citada por Maués, utilizou dados de satélite da NASA para monitorar a temperatura no entorno de mais de 8 mil data centers ao redor do mundo, entre 2004 e 2024. Os cientistas registraram um aumento médio de 2,07°C na superfície terrestre logo após o início das operações.

De acordo com dados publicados pelo portal Al Jazeera, o efeito térmico propaga-se por até 10 km, mas a intensidade cai rapidamente com a distância. Em um raio de até 4,5 km das instalações, o aquecimento médio do solo permanece na casa de 1°C.

Além do impacto térmico, há a pressão sobre a matriz elétrica. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo de eletricidade dos data centers deve ultrapassar os 945 terawatt-hora até 2030, o dobro dos níveis registrados em 2024.

Nos Estados Unidos, atual líder global em instalações operantes, a saturação já afeta o mercado. No Estado da Virgínia, a fila de novos data centers tentando conexão à rede elétrica obrigou a concessionária local a agrupar os projetos em lotes. A previsão é que grandes plantas levem até sete anos para conseguir ativação.

Na Europa, a capital irlandesa, Dublin, restringiu novas conexões à rede em partes da cidade. Em 2024, os centros de processamento locais já consumiam mais eletricidade do que todas as residências da Irlanda somadas. A organização britânica Ember estima que ligar um novo data center em polos como Frankfurt, Londres, Amsterdã ou Paris pode levar de 7 a 13 anos.

Soluções extremas de resfriamento

A corrida global para mitigar o aquecimento dos servidores levou potências tecnológicas a desenvolverem abordagens de engenharia radical. Na China, a estratégia adotada foi submergir a infraestrutura. O país ativou um data center comercial subaquático na costa de Xangai, operando a dez metros de profundidade. O projeto utiliza a água do mar por meio de um sistema contínuo de troca de calor, eliminando a necessidade de água doce para refrigeração e cortando o consumo elétrico em mais de 22%.

AI1 Satellite – primeiro conceito de satélite de centro de dados orbital / Fonte: SpaceX

Já no setor privado americano, o empresário Elon Musk propõe transferir o maquinário para fora do planeta. O plano estruturado pela SpaceX envolve o lançamento de data centers de inteligência artificial diretamente na órbita terrestre, alimentados por energia solar contínua. Para contornar o superaquecimento no vácuo, o projeto prevê o uso de radiadores de grande porte com fluidos termicamente eficientes — como a amônia — dissipando o calor no espaço e poupando os recursos terrestres.

Brasil como referência ecológica e rota de fuga para o gargalo energético

O esgotamento da infraestrutura no hemisfério norte transforma o Brasil em um destino atrativo para as gigantes da tecnologia. O país destaca-se pelo excedente de energia renovável.

Nos horários de pico de insolação, os painéis solares brasileiros geram mais eletricidade do que a rede consegue absorver. Para evitar a sobrecarga do sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ordena a redução da geração. Esse processo, conhecido tecnicamente como curtailment, fez com que as usinas deixassem de gerar 20,6% do seu potencial em 2025. A manobra representou uma perda de faturamento próxima a R$ 6,5 bilhões para o setor.

Outro diferencial competitivo do Brasil é a arquitetura do seu sistema elétrico. Ao contrário dos Estados Unidos e de partes da Europa, o modelo brasileiro opera sob um grid nacional interligado.

Na prática, isso significa flexibilidade na distribuição. A energia gerada no Rio Grande do Sul pode ser direcionada para alimentar um servidor no Amapá. Segundo Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, essa característica inexiste no mercado americano. “Você pode ter geração excedente na costa leste, mas não consegue levar isso para a costa oeste”, explica o executivo.

Apesar dos passivos ambientais em debate, a atração de data centers atua como um injetor agressivo de capital. Nos últimos dois anos, empresas do setor anunciaram mais de R$ 80 bilhões em novos projetos no país.

No Ceará, acordos para fornecimento de energia limpa a data centers, envolvendo a Casa dos Ventos e gigantes da tecnologia, alcançaram um aporte combinado de US$ 2,5 bilhões. Esse capital financia a infraestrutura nacional e converte-se na geração de milhares de postos de trabalho, consolidando o Nordeste como um polo tecnológico em escala global.

O futuro da infraestrutura digital 

A operação de armazenamento de dados deixou de ser um mero obstáculo de software para se transformar em um complexo desafio físico, logístico e climático global. Países que antes protagonizam a era digital hoje enfrentam restrições energéticas e de espaço físico em suas regiões, provocando um forte gargalo no comércio internacional.

Diante desse esgotamento no exterior, o Brasil ganha um protagonismo comercial sem precedentes graças à combinação de uma rede elétrica unificada e de matriz limpa. Esta aptidão para receber estruturas de processamento massivo de inteligência artificial posiciona o cenário brasileiro como referência de infraestrutura para o mercado global.

Garantir o equilíbrio entre o aporte de bilhões em investimentos e a proteção térmica e energética das áreas urbanas surge como o principal compromisso para a administração pública do país. A instituição de normas ecológicas rígidas e específicas para controlar o calor e a eletricidade consumida pelos servidores é o caminho essencial para transformar essa atratividade externa em progresso tecnológico interno de fato.

Com uma estrutura normativa eficaz, o aumento desses polos gerará novos empregos e fomentará a inovação técnica, preservando os recursos hídricos e a estabilidade energética nacional. O Brasil dispõe de todas as condições não somente para servir de base para os equipamentos contemporâneos, mas para fundar a diretriz de maior lucratividade e sustentabilidade ecológica da futura economia digital.

Marcado:

Um comentário

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *